
Feliz o jovem que, entrando na fase adulta, tem a oportunidade de servir ao Exército Brasileiro — um período da vida muito importante pelos aprendizados ou, até mesmo, o início de uma carreira militar.
Como aqui não temos nenhuma base militar, a maioria dos municípios da região leva seus jovens para Santa Maria, local preparado e projetado para essa demanda. Eu, por exemplo, servi no 4º BELOG, que cuida da logística e ficava ao lado do famoso 29º BIB, focado na artilharia. Como fui apenas reservista, permaneci por lá 10 meses e 13 dias, pois saí na primeira turma.
Lembro da preocupação da minha mãe. Esse foi o primeiro desligamento longo, e eu teria que me virar sozinho. O início foi difícil — três meses sem vir para casa não foi fácil para ninguém. Mas foram bons e hoje saudosos momentos do soldado César 518, do Pelotão de Saúde.
Isso me proporcionou fazer estágio no hospital militar (HGU), atuando como auxiliar do corpo de enfermagem. Presenciei várias situações marcantes, como a fuga de um paciente em surto psicótico, onde até nós ajudamos no resgate.
Em outra ocasião, fora do horário, fui buscar cigarros para um superior na cantina. Tive azar: o oficial do dia me incluiu numa missão com outros recrutas, num lugar chamado CISME, onde aconteceu nossa cerimônia de despedida. Mas naquele dia, fui parar numa grande plantação de milho — a missão era passar o dia inteiro na colheita. Meus colegas ficaram enlouquecidos, ninguém sabia onde estava o "Negro", apelido carinhoso que me deram.
Tive também a oportunidade de presenciar e participar de um júri militar, envolvendo um desertor que voltou ao quartel para buscar documentos e teve que responder formalmente. Éramos uma turma pequena, com muita união entre recrutas e superiores. Meia dúzia de colegas sempre aprontavam — e sobrava para todo mundo: pagar flexões, fazer o famoso “cricri” (arrancar grama entre as pedras de calçamento) e ser detido, permanecendo direto no quartel. Para nós, que alugávamos um quarto perto, isso era péssimo, pois quebrava a escala da limpeza e da janta. Em uma oportunidade, eu era o cozinheiro e só tinha massa. No momento em que coava com a água da torneira, derrubei tudo no barro. Resultado: sem janta, e alguns brigando comigo.
Nosso pelotão de saúde era muito bom de futebol. O Tenente Carvalho, nosso superior, era treinador da seleção do quartel. Com isso, tínhamos algumas mordomias, como viagens a outras cidades, ótima alimentação e até algumas folgas. Eu aproveitava e vinha para casa de trem de passageiros, que passava pela serra, era muito frequentado, com passagem barata — uma verdadeira viagem turística.
Numa dessas vezes, vim num domingo de ônibus. Só que o ônibus parou em Júlio de Castilhos, ainda a 23 km da minha casa. Como sempre sem dinheiro e usando um coturno novinho, além da chuva mansa, porém contínua, não tive opção. Coloquei os pés na estrada e, devagarinho, fui “comendo” as horas. Consegui uma carona já chegando na cidade. Agradeci, todo molhado e embarrado. Iniciei a marcha por volta das 7h e, às 13h30, já havia tomado banho, almoçado e deitado na cama, onde dormi até o outro dia, perto das 12h. Às 16h, eu já tinha que voltar — coisas de soldado “zero”.
Sempre fui uma negação no tiro. Meu superior me condicionou a melhorar para poder ser liberado do Exército. Me colocou numa turma especial com um sargento específico da área. Lá, por acaso, troquei o fuzil FAL do lado direito para o esquerdo e, pela primeira vez, consegui visualizar a alça de mira. Depois de todo esse tempo, finalmente acertei o jeito. Tranquilo, sem ninguém me apressando, respirando com calma, deitado e com os braços apoiados no chão, comecei nos 100 metros e cheguei aos 700, praticamente colocando cinco projéteis no mesmo buraco. É uma história que o sargento contava e ninguém acreditava. Meus colegas tinham pavor de atirar comigo — sempre dava errado. Diziam que eu havia “comprado” o superior com cigarros, pois ele era um baita “puxuca” (quem fuma e não compra cigarros).
Também tive muita sorte. Me pegaram fumando e escutando rádio na guarda. Foi um tendal. Recolheram o aparelho novinho que um colega havia me emprestado e registraram a ocorrência com o oficial de dia. No dia seguinte, quando ele me dava a maior reprimenda no corredor, bem na hora estavam chegando os regimentos. Entre nós, passou um cabo que não fez continência e ainda deu risada. O oficial enlouqueceu — a resenha foi horrível com o cabo, que acabou me “salvando”. Passada uma semana, fiquei de plantão no quartel por sete dias seguidos.
Enfim, chegou o dia de ir embora. Nunca gostei da farda e, por anos, fui o único João César a servir naquele quartel. Um sargento que tinha o mesmo nome ficou muito meu amigo e fez com que outro do comando passasse a me considerar. Meus colegas, trago cada um no coração. E outros amigos, do lugar chamado Boi Morto, onde muitos domingos fazíamos 7 km depois das 12h para chegar no quartel. Boas lembranças que formaram uma grande base na minha vida.
João Cesar Flores
Tupanciretã – RS