
Quem controla o crédito influencia quem planta, quem investe, quem cresce e, muitas vezes, quem permanece na atividade. Em municípios cuja economia gira em torno da soja, essa realidade é ainda mais evidente.
Durante décadas, o Brasil assistiu a uma agricultura extraordinária, construída por homens e mulheres que enfrentaram secas, geadas, inflação, juros elevados e preços instáveis. Mas essa mesma história também conheceu períodos em que a esperteza valeu mais do que a competência.
O chamado "adubo de papel" tornou-se símbolo de uma época em que parte da riqueza não brotou da terra, mas da fragilidade dos controles e do uso distorcido do crédito. Enquanto muitos trabalhavam para produzir alimentos, alguns aprenderam a produzir vantagens.
O tempo passou, as máquinas ficaram inteligentes. Os satélites enxergam cada hectare. A inteligência artificial calcula riscos. Mas nenhuma tecnologia é capaz de substituir aquilo que realmente sustenta uma operação de crédito: caráter.
As novas regras do Conselho Monetário Nacional (CMN) reforçam o protagonismo das instituições financeiras e ampliam a responsabilidade de quem analisa cada financiamento. Na prática, a pergunta deixa de ser apenas "quanto vale a garantia?" e passa a ser "quem merece confiança?".
É justamente aí que reside o maior desafio. O gerente de uma agência não distribui apenas recursos, distribui oportunidades. Cada assinatura pode decidir quem continuará produzindo, quem ampliará sua área, quem comprará máquinas, quem contratará funcionários e quem permanecerá competitivo.
Por isso, o crédito não pode ser capturado por relações pessoais, influência, tradição familiar ou conveniências locais.
Crédito não pode ter dono. Não pode ter sobrenome. Não pode circular entre os mesmos de sempre. Se isso acontecer, deixa de ser política de desenvolvimento para se tornar instrumento de concentração de poder.A agricultura brasileira já pagou caro demais por decisões baseadas em privilégios.
Quem merece crédito não é quem frequenta os melhores ambientes, mas quem demonstra capacidade de transformar recursos em produção, emprego, renda e desenvolvimento.
Não é quem possui o maior patrimônio, é quem possui a maior credibilidade, porque patrimônio pode esconder erros, garantias podem ser infladas, relacionamentos podem abrir portas, mas reputação não se fabrica. Ela é construída safra após safra, contrato após contrato, compromisso após compromisso.
O verdadeiro agricultor sabe que confiança demora décadas para ser conquistada e poucos minutos para ser perdida.
Se o sistema financeiro deseja fortalecer o agronegócio, precisa reconhecer uma verdade simples: crédito não é prêmio para os influentes, nem favor aos próximos.
É investimento naqueles que entregam resultados e honram sua palavra. A chave do cofre não deveria abrir portas para os mais próximos do poder, deveria abrir caminhos para os mais confiáveis.
Porque, quando o dinheiro público ou subsidiado chega às mãos erradas, perde o banco, perde o produtor sério, perde o município e perde o Brasil.
Mas, quando ele chega a quem realmente merece, o crédito deixa de ser um número em um contrato e passa a cumprir sua verdadeira missão: transformar confiança em desenvolvimento.
No fim, a agricultura não precisa de novos privilegiados, precisa de novos exemplos.